sábado, 5 de abril de 2008

Mutável e volátil

A mutabilidade é o que determina a produção humana de hoje. A arqueologia do futuro não poderá obter muita informação desse nosso estado atual. Todo o material é altamente “volátil”. É mais fácil descobrir, hoje, o que aconteceu há milhares de anos atrás, do que será descobrir, daqui a só 2.000 anos, o que aconteceu hoje.
Todo o material humano atual é mutável, e também rapidamente destruído, para dar lugar a outro. O material de antigamente, não. Cidades em pedra, registros em placas, objetos manuais... tudo era consistente, visando uma longa vida útil, pois a evolução ocorria em pequenos passos. Um par de chinelos de couro durava “uma vida toda”. Uma casa de pedras durava séculos, ou milênios. Um par de chinelos, hoje, não dura mais do que dois anos. Uma casa de alvenaria mal dura cem anos.
De você, para sua futura geração, ficarão, talvez, algumas fotos. O registro do seu labor será sempre mutável e, portanto, com certeza esquecido, nesse grande emaranhado mundano (que é, como eu disse, altamente volátil, não permitindo registros materiais consistentes – isso dificulta, e muito, o reconhecimento do que foi feito).
Talvez, fiquem alguns parcos registros em palavras (logicamente) na memória de algum hd. Mas, por via das dúvidas, vou escrever numa placa de argila, e enterrar embaixo da terra:

NOVELO DIGITAL
"no.ve.lo: bola feita de fio enrolado"
(Fernando Assad – blog criado em dezembro de 2007)

3 Comments:

Lya Lopes said...

Quando eu era mais nova vivia preocupada com isso. Eu enterrava bolinhas de gude, para que no futuro soubessem que haviam crianças naquela casa. Hoje isso toma proporções muito maiores.
Não vou nem contar daqui a milhões de anos. até mesmo em décadas a memória se perde. Vai chegar um momento onde só saberemos o que é passado de pai para filho.

Wi||iam said...

icqDepois me diga o local, que é pra eu mostrar aos meus filhos que em meu tempo tinha muita coisa boa pra ler e pensar.
Congratulações!

Ana Marques said...

Daqui a milhares de anos o que descobrirão a nosso respeito?

Depende. Se a civilização tiver acabado como a conhecemos e uma nova tiver surgido, o que ficará serão monumentos em pedra, cidades por cima de cidades, resquícios de fundações perdidas, escritos quase perdidos e dificilmente entendíveis.

Agora, se a civilização que existir vier de nós, o que ficará a nosso respeito serão os relatos dos poderosos.

E se assim for, não terá mudado muito.

Excelente texto. Excelente blog.
Parabéns.